O que aconteceu: a carta do ONS, revelada pela Agência iNFRA, escolheu as cinco por muita GD instalada e maturidade tecnológica, e sugere vedar compensação "para evitar a introdução prematura de sinais econômicos". É o segundo capítulo da Consulta Pública 033/2026, aberta em 10 de setembro e que recebe contribuições até 9 de novembro. Na mesma semana, um parecer da Procuradoria da ANEEL concluiu que a agência pode cortar fisicamente a GD por segurança da rede, mas não pode glosar crédito sem lei. Vai à diretoria dia 24.

Como funciona, em português: são quatro nomes numa frase só, vale destravar. Sandbox regulatório é teste com regra provisória, em área limitada, antes de virar norma. DSO é a distribuidora deixando de ser só dona do fio pra virar operadora do que está conectado nele, como o ONS é da transmissão. REDs são os recursos energéticos distribuídos: sua usina, sua bateria, seu carro elétrico. E o Módulo 3 do PRODIST, que a CP 033 reescreve, é o manual de conexão.

Hoje o ONS enxerga a transmissão e, abaixo da subestação, 54 GW de GD são invisíveis. No teste, o ONS manda pra distribuidora e a distribuidora manda pro inversor. Corte físico é a usina parar de injetar; corte contábil é você gerar e o crédito ser glosado. Os dois cortes emergenciais de 2026, em 7 de junho e 23 de agosto, atingiram usinas Tipo III, não o telhado do seu cliente. A CP 033 começa acima de 75 kW: cerca de 70 mil instalações e 33 GW.

Por que importa? Quem vende nessas quatro regiões entra na proposta com uma pergunta nova do cliente: "e se cortarem?". A resposta que o setor tinha era "a lei compensa", e ela rachou: em 11 de setembro a 13ª Vara Federal do DF negou à ABSOLAR e à ABEEólica a compensação integral pelos cortes, numa causa de R$ 215,7 milhões, e disse que quem define o que é ressarcível é a ANEEL. Se o teste nasce sem compensação, o precedente é esse. Pra quem vende bateria, virou o melhor argumento do ano.

Do outro lado: ninguém sério defende 54 GW cegos. Austrália e Califórnia operam controle remoto de inversor há anos, e o resultado foi bateria residencial em escala.

Minha leitura: eu passei sete anos vendendo pra integrador e sei o que acontece com uma proposta quando entra a palavra "obrigatório". O cliente não pergunta quantos MW o ONS vai cortar. Pergunta quem paga. E a resposta do teste é: ninguém. O botão em si eu defendo; rede que não enxerga 54 GW é rede cega, e cego não opera nada. O que eu não engulo é o desenho: quem aperta não sente, quem sente não aperta. Isso não é sandbox, é seguro em que o segurado paga o prêmio e o beneficiário é a seguradora. A bateria virou a única cláusula que o dono do telhado escreve sozinho. A CP 033 fecha em 9 de novembro. Silêncio também é contribuição, só que pro outro lado.

REGULAÇÃO

A Abradee quer cobrar por hora quem tem solar

Em agosto, a Procuradoria da ANEEL disse que a tarifa horária pode valer pra quem tem geração distribuída. Nesta semana, a Abradee pediu tarifa por horário tanto pra energia injetada quanto pra consumida. Dois documentos, uma direção, e ninguém ligou os dois.

O que aconteceu: o parecer saiu dentro da Consulta Pública 046/2025, que propõe migrar automaticamente 2,5 milhões de unidades acima de 1 MWh por mês pra tarifa horária até o fim de 2026. O argumento da Procuradoria, resumido pelo Canal Solar, é direto: a Lei 14.300 garante a compensação, não garante a permanência na tarifa convencional. Aí veio a Abradee, pela voz de Ricardo Brandão, pedindo sinais horários pra GD: diferenciar o custo da energia injetada ou puxada da rede a depender da hora. Contexto: a adesão voluntária à tarifa branca somou 69 mil unidades em 75 milhões de elegíveis. Voluntário não funcionou, então vai ser automático.

Como funciona, em português: tarifa branca, ou horária, é a conta com três preços: ponta (por volta das 18h às 21h, o mais caro), intermediário e fora de ponta, o resto do dia, o mais barato. Hoje o crédito de 1 kWh que a placa injeta ao meio-dia compensa 1 kWh consumido às 19h. Vale o mesmo. Com tarifa horária na injeção, o kWh que entrou às 12h vira crédito de hora barata e o kWh das 19h vira consumo de hora cara. O prosumidor sem bateria passa a vender na hora que vale menos e comprar na hora que vale mais. A Abradee está pedindo exatamente isso: que o crédito carregue a hora em que nasceu.

Por que importa? A proposta comercial que o integrador fez em 2024 não sobrevive a essa conta. O payback foi calculado com tarifa convencional e crédito um pra um. Quem tem cliente acima de 1 MWh por mês, comércio, condomínio, casa grande, vai ver a fatura mudar sem ter pedido. E o comercializador que oferece migração pro mercado livre ganha um argumento pronto: no ACL o preço por hora já existe e você escolhe o contrato.

Do outro lado: o sinal de preço está certo. A rede tem sobra ao meio-dia e aperto às 19h, e cobrar igual pelas duas horas é o que empurrou o sistema pra onde está. A Austrália paga de 3 a 8 centavos de dólar pelo kWh exportado e instalou 487 mil baterias residenciais em treze meses. O mercado responde quando o preço fala.

Minha leitura: a Abradee não está errada, e é isso que incomoda. A rede sobra ao meio-dia e aperta às sete da noite; cobrar igual pelas duas horas foi o que enfiou o sistema onde ele está. Mas olha a sequência do ano: migração automática, crédito valorado por hora, Fio B em 60%. Três mudanças, uma conta, zero transição. Quem comprou solar em 2024 comprou um produto e vai receber outro pelo correio. O que ninguém está dizendo em voz alta: tarifa horária não mata a solar, mata a solar sem bateria. Quem consegue guardar o kWh das 12h pra gastar às 19h acabou de ganhar o melhor negócio da baixa tensão. Quem ainda vende payback em tarifa convencional está vendendo passagem pra um trem que já saiu.

COMEX

O módulo caiu pela metade e ninguém sentiu

O Brasil importou 5,48 GWp de módulos no primeiro semestre, 48% a menos que os 10,57 GWp de um ano antes, segundo a Greener. E o preço na sua cotação quase não mexeu. Não é milagre. É pátio cheio.

O que aconteceu: os dados estão na pv magazine Brasil. A geração centralizada despencou 82%, de 2,3 GWp pra 0,43 GWp. A distribuída caiu 39%, de 8,2 pra cerca de 5 GWp, e virou 92% de tudo que entra. O preço FOB médio subiu 12,9%, de US$ 0,0802 pra US$ 0,0906 por Wp, com pico em maio. O financiamento, que era 57% das vendas em 2021, está em 41%. Em Minas, 79% dos integradores tomaram negativa de conexão por inversão de fluxo em 2025, contra 33% no país. E a Sungrow anunciou reajuste de 5% a 15% em inversores e armazenamento a partir de 20 de setembro, o segundo do ano, citando cobre e alumínio.

Como funciona, em português (da fábrica na China): FOB é o preço no porto chinês, antes de frete, seguro e imposto. Até março, a China devolvia ao fabricante 9% de imposto sobre o que ele exportava; em abril acabou, e na teoria o módulo deveria subir 9%. Na prática subiu menos, porque a fábrica está ociosa e prefere engolir margem a perder pedido. Involução é o nome que Pequim deu à guerra de preços com margem negativa, e o governo chinês está tentando encerrá-la controlando a capacidade de polissilício. Só que o futuro de polissilício em Guangzhou negociava setembro abaixo do preço à vista: pouca convicção na alta.

Do lado de cá, a conta fecha assim: no primeiro semestre de 2025 o Brasil importou 10,6 GWp e não instalou tudo. Sobrou pátio. Por isso o país chegou a 77,6 GW e bateu a projeção do ano com três meses de antecedência enquanto a importação caía pela metade. O setor está vendendo estoque de 2025 a preço de 2025.

Por que importa? O distribuidor com lote a US$ 0,08 concorre com quem comprou a US$ 0,10 em maio, e o preço na ponta não sobe com contêiner parado. Quando esse estoque acabar, o degrau vem de uma vez. A geração centralizada, com 430 MW em um semestre, parou de comprar: curtailment sem regra de ressarcimento matou o pipeline, e a Greener diz isso com todas as letras. GD agora é o mercado inteiro.

Do outro lado: a China segura preço mais tempo do que qualquer planilha prevê. Vimos esse filme em 2023.

Minha leitura: o número que todo mundo repete é o 48. O que eu olho é o 92: a GD virou o mercado inteiro de módulo no Brasil, e ninguém desenhou o setor pra isso. Na fábrica, na China, o cara sabe que não sobe preço quando o subsídio acaba; sobe quando o pátio de Santos esvazia. Vi esse filme em 2023 do outro lado do balcão, com contêiner parado e banco cobrando. Pátio cheio é preço bom e memória curta: quando o estoque de 2025 acabar, o degrau chega de uma vez, em quem comprou pra doze meses achando que estava esperto. O vilão é o curtailment sem regra. Tirou a usina grande da mesa e deixou o telhado pagando a conta da rede. E o telhado nem sabe.

REGULAÇÃO

A distribuidora virou fiscal do seu cliente

No mesmo mês em que pede o botão, a distribuidora está olhando a sua instalação com lupa: limite de 5 kW por fase informado por e-mail, cobrança retroativa de Fio B em unidades reenquadradas como GD II e microinversor tendo de ser realocado pra passar na vistoria. São relatos de casos concretos.

O que aconteceu: os três casos foram divulgados pela advogada Juliana de Oliveira, do Oliveira & Rohr, todos envolvendo a Celesc, entre agosto e setembro. Não há norma pública nova por trás deles: são exigências de regional, por e-mail e parecer de vistoria. A Consulta Pública 009/2026 propôs que a potência instalada da GD passe a ser a soma da saída dos inversores em corrente alternada; as contribuições fecharam em junho e a decisão ainda não saiu. A REN 1.000 já obriga a comunicar qualquer ampliação. Uma pesquisa divulgada pela Bárbara Rubim com quase 400 integradores dá a escala: 73,9% tiveram a operação afetada por mudança de regra nos últimos doze meses.

Como funciona, em português: GD I é quem pediu acesso até 6 de janeiro de 2023 e tem direito adquirido até 2045. GD II é quem entrou depois e paga o Fio B, a parte da tarifa que remunera o fio da distribuidora, escalonado: 15% em 2023, 30% em 2024, 45% em 2025, 60% em 2026, até 100% em 2029. A lei não prevê cobrança retroativa. Quando ela aparece, houve reenquadramento: a distribuidora entendeu que a unidade GD I foi ampliada sem aviso, reclassificou como GD II e cobrou a diferença desde a data que ela definiu. Potência instalada, hoje, é o menor valor entre módulos e inversores; a CP 009 quer mudar isso e fechar a porta de ampliar só o campo em corrente contínua.

Por que importa? Cada ampliação feita desde 2023 sem comunicar a distribuidora é uma bomba de reenquadramento com timer. E a vistoria que antes olhava disjuntor agora olha fase, posição de microinversor e razão entre corrente contínua e alternada. O custo de conformidade virou custo de venda.

Do outro lado: tem irregularidade de verdade no mercado. Sistema ampliado no escuro é o que dá munição pra quem quer controlar tudo.

Minha leitura: ninguém regula por e-mail de regional. E é exatamente assim que a GD está sendo regulada em 2026. O vilão não é a Celesc olhar a instalação; ela pode e deve. O vilão é a regra que muda depois que o sistema está no telhado, aplicada por vistoria e não por norma publicada. Quem ampliou sem avisar desde 2023 não cometeu crime, fez o que o mercado inteiro fazia. Só que agora tem alguém contando fase. O cliente vai receber a cobrança, ler o nome da distribuidora e ligar pro seu telefone. Papel vence conversa. Quem guardou o e-mail da distribuidora ganha a discussão que ainda nem começou.

MERCADO LIVRE

Quem quebrou vai pagar pelo próximo que quebrar

A Abraceel admitiu na quinta (18) que a formação de preço está machucando o mercado, e a CCEE desenha uma reserva financeira calculada pelo risco de cada agente, mais um fundo pra perda com inadimplência. Depois da Safira, a reforma vai cair em garantia.

O que aconteceu: Alessandro Cantarino, vice-presidente da Abraceel, defendeu mudar a formação de preço e implantar a autorregulação ainda em 2026: adesão obrigatória, código de conduta e uma central de riscos com dezessete métricas semanais, abertas entre as associadas. A CCEE, segundo a MegaWhat, quer que cada agente mantenha reserva proporcional ao próprio risco, com uma parcela variável que sobe quando o mercado piora, em seis camadas de proteção. A minuta vai à ANEEL até novembro. O gatilho tem nome: em 1º de setembro a CCEE colocou as empresas do grupo Safira em operação balanceada, e a Justiça de São Paulo deu ao grupo sessenta dias de proteção pra renegociar R$ 357,5 milhões. Enquanto isso, a Thymos projeta PLD médio de R$ 170 por MWh na primavera e a BBCE fechou agosto com R$ 10 bilhões em derivativos em estoque.

Como funciona, em português: PLD é o preço de liquidação das diferenças, o valor que a CCEE usa pra acertar, a cada hora, o que foi contratado e o que foi de fato gerado ou consumido. Operação balanceada é a CCEE proibindo o agente de comprar mais do que vende. Reserva prudencial é dinheiro parado como garantia, calculado pelo histórico de liquidação e alavancagem do agente. Central de riscos é o cadastro que mostra quem mudou de sócio, atrasou garantia ou tem ação na Justiça. Derivativo de energia é contrato que aposta no preço futuro, negociado na BBCE, a bolsa do setor.

Por que importa? Pro comercializador pequeno, garantia sobe conforme risco, e risco em 2026 é qualquer um que vendeu contrato de solar e viu o curtailment comer a geração. Capital preso é margem que sai. A baixa tensão residencial abre em dezembro de 2027, pelo desenho da MP 1.300, e quem quiser ser varejista vai entrar nesse regime.

Do outro lado: sem reserva, o próximo Safira quebra o vizinho, e o vizinho quebra o seu cliente.

Minha leitura: o PLD está dizendo que energia é barata numa primavera em que a usina não pode gerar. Preço que não conta a história quebra quem confiou nele, e a Safira é só o primeiro nome. A autorregulação da Abraceel e a reserva da CCEE são a mesma coisa: o mercado descobrindo, tarde, que confiança custa garantia. Eu não acho ruim; a Anbima fez isso e o crédito ficou mais barato pra quem era sério. Mas presta atenção em quem paga: o pequeno, com capital preso proporcional a um risco que o preço criou. E o integrador que sonha em virar varejista em 2027: a porta vai abrir, e vai ter porteiro. Ele não vai pedir sua carteira de clientes. Vai pedir seu balanço.

DADOS

A conta sobe 9,4% e o culpado é o passado

9,4%. É a nova projeção da ANEEL pro reajuste médio da conta de luz em 2026, divulgada em 18 de setembro no boletim InfoTarifas e detalhada pelo Canal Solar. Começou o ano em 8%, foi a 8,6% em junho, agora 9,4%. Quase o dobro da inflação projetada, de 5%.

O que aconteceu: o maior peso vem dos componentes financeiros, 4,7 pontos percentuais sozinhos. A Parcela B, que é a remuneração da distribuidora, entra com 0,8 ponto. Um aporte de R$ 5,2 bilhões da CDE segurou 1,9 ponto pra baixo. E 16% do mercado brasileiro está em áreas com reajuste acima de 15%. Setembro fechou o quinto mês seguido de bandeira amarela, R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, e outubro ainda não tem cor definida.

Como funciona, em português: a conta tem Parcela A, o que a distribuidora repassa sem lucro (energia comprada, transmissão, encargos), e Parcela B, o que ela ganha pra operar o fio. Componentes financeiros são a conta do passado: o que a distribuidora gastou a mais em ano anterior, com energia mais cara ou câmbio pior do que o previsto, e a ANEEL autoriza cobrar agora, com correção. É por isso que a tarifa sobe num ano em que o PLD está baixo. CDE é o fundo de subsídios que todo mundo paga na tarifa, e que este ano recebeu dinheiro extra pra amortecer o Norte e o Nordeste.

Por que importa? Cada ponto de reajuste é payback menor na sua proposta, e 9,4% num ano em que a tarifa vai virar horária pra 2,5 milhões de unidades é a combinação que vende bateria sozinha. Só que o número tem prazo de validade: quem usa 8,6% na proposta de outubro está vendendo com dado velho, e o cliente que pesquisa vai perceber.

Minha leitura: a conta sobe pelo passado, não pelo presente. O kWh gerado hoje é o mais barato da história; o que encarece é a dívida de 2024 e 2025 chegando parcelada, com correção. O cliente não faz essa separação. Ele vê 9,4%, vê dois dígitos na área dele e pergunta por que a solar do vizinho não resolveu. Quem ainda está com 8,6% no simulador está vendendo com dado velho num mercado em que o cliente pesquisa antes de responder o WhatsApp. Eu não sei a variável de novembro, mas sei o histórico: três projeções em 2026, todas pra cima. Quando a distribuidora cobra o passado e ainda quer cobrar por hora, a única conta que fecha é a que você faz sozinho, no seu telhado.

the Grid

Energia sem release requentado. Toda terça, o que aconteceu no setor e, principalmente, o que fazer com isso antes do concorrente. A leitura de quem está na trincheira, não na arquibancada.

BESS, mobilidade elétrica, mercado livre, regulação, dados e COMEX, na língua de quem opera: empresário, integrador, comercializador e profissional de energia. Com opinião de quem visita fábrica na China e fecha negócio no Brasil.

Direto no seu e-mail, toda terça-feira. É de graça, mas vicia.

até semana que vem!