O que aconteceu: o levantamento foi feito pela ANEEL a pedido do Movimento Econômico. A Bahia lidera com 158 pedidos, seguida do Piauí (129), do Rio Grande do Norte (91) e do Ceará (67). Pernambuco aparece com 22 pedidos. No Ceará, segundo o Diário do Nordeste, os cancelamentos já são três vezes as aprovações. No país inteiro, a pv magazine Brasil contou 40 GW desistidos no ano.

Como funciona, em português: outorga é a autorização da ANEEL para construir e operar uma usina. Até 2 de março de 2022, quem pedia outorga garantia desconto nas tarifas de uso da rede de transmissão. A própria agência chamou o período de corrida do ouro: muita gente pediu autorização sem ter linha pra escoar, comprador pra energia ou dinheiro pra construir. Agora, com o desconto já garantido e nenhuma condição de sair do papel, o empreendedor devolve a outorga pra não pagar garantia e multa por atraso. A Fiepe, federação das indústrias de Pernambuco, culpa falhas de planejamento, limitações de transmissão e incerteza regulatória. A ABSOLAR fala em inviabilidade técnica e econômica nas condições atuais.

Por que importa? Porque a desistência não é preguiça, é conta. Executivos ouvidos pelo Movimento Econômico apontam os cortes de geração e a imprevisibilidade como motivo principal, e a ANEEL fala em falta de linha e excesso de oferta. A Volt Robotics estima que o país jogou fora cerca de 20% da energia renovável que poderia ter gerado no ano passado. Para quem vende módulo, inversor ou serviço para usina grande, isso explica por que a importação para geração centralizada caiu 82% no primeiro semestre. Para o comercializador, menos usina nova significa menos oferta barata de energia incentivada lá na frente.

Do outro lado: o Brasil não ficou sem sol. A ABSOLAR estima 21,22 GW de usinas centralizadas em operação, e a geração distribuída segue crescendo nos telhados. O dinheiro não saiu do setor; saiu do lugar errado e está procurando o lugar certo: bateria, autoprodução e usina perto de quem consome.

Minha leitura: a revogação em massa é a melhor notícia ruim do ano. Sim, 22 GW a menos dói em quem vende equipamento, mas o vilão é o modelo que distribuiu outorga como bilhete de rifa e chamou isso de política energética. Limpar a fila de projeto fantasma libera rede pra quem tem projeto de verdade. Quem sobreviver a essa faxina vai ter cliente, linha e preço. Escolha agora, com calma, de que lado da faxina você quer estar.

GERAÇÃO

Quem paga o sol que ninguém usa

Sete anos depois, a ANEEL fechou a regra dos cortes de geração. Eólica, solar e, aos poucos, hidrelétrica vão dividir o prejuízo quando o ONS mandar desligar por excesso de oferta.

O que aconteceu: a diretoria encerrou em 6 de outubro a Consulta Pública 45/2019, por maioria, como mostrou a CNN Brasil. O diretor Fernando Mosna, que queria uma quarta rodada de consulta, ficou vencido. O ONS tem 180 dias para adaptar os sistemas. Depois vêm 12 meses de período de sombra, uma simulação sem efeito financeiro, e a regra passa a valer de fato 18 meses após a publicação.

Como funciona, em português: curtailment é o corte que o ONS impõe à usina quando sobra energia ou falta linha. Hoje, cada fonte divide o corte só entre as usinas da mesma fonte: eólica com eólica, solar com solar. No modelo novo, eólicas, solares e hidrelétricas que estavam jogando água fora pelo vertedouro entram na mesma conta. As hidrelétricas entram em quatro degraus, 25%, 50%, 75% e 100%, sem precisar de nova decisão. Corte por falta de linha é rateado depois, entre os responsáveis, por uma matriz de sensibilidade. Na autoprodução, só a sobra além do consumo local é cortada, salvo emergência de segurança. A norma ainda prevê auditoria independente sobre a apuração do ONS e relatórios periódicos públicos.

Por que importa? Porque divide o prejuízo, mas não paga ninguém. Corte por excesso de oferta ou por limite de transmissão continua sem compensação. Para o comercializador, isso muda o risco de entrega de cada contrato: o corte deixa de cair desproporcionalmente numa fonte e passa a ser um custo do sistema renovável inteiro. Para o gerador, é previsibilidade; para quem investe, é custo fixo que precisa estar na planilha.

Do outro lado: o passado tem regra própria. A compensação pelos cortes entre 2023 e 2025 é estimada em cerca de R$ 3 bilhões, e a capacitação da CCEE para quem aderiu termina em 19 de outubro. E a GD? Em junho, a relatora Agnes da Costa votou para manter a micro e minigeração fora dessa norma, porque ela é operada pelas distribuidoras e pede regra própria. Essa regra própria é a Consulta Pública 33, aberta até 9 de novembro.

Minha leitura: dividir o prejuízo é mais justo do que deixar o solar pagar sozinho. Sim, a ANEEL acertou ao colocar a hidrelétrica na conta, mas o vilão continua de pé: a falta de linha e de bateria que gera o corte. Regra de rateio organiza a fila do prejuízo; não diminui o prejuízo. Quem investe em geração daqui pra frente precisa casar usina com armazenamento ou com consumo no próprio lugar, e colocar o corte na planilha como custo fixo desde o primeiro dia.

MOBILIDADE

O elétrico tirou o pé

“Não acabou a bateria. Só parou pra pensar.”

Pela primeira vez em 2026, o carro elétrico vendeu menos que no mês anterior. Em setembro foram 53.126 eletrificados, contra o recorde de 57.386 em agosto.

O que aconteceu: os números da ABVE, publicados pelo CanalVE, mostram os elétricos puros caindo 18%, de 27.166 para 22.246. A participação dos eletrificados no mercado de leves caiu de 21,8% para 19,8%. Os híbridos plug-in somaram 20.202 e quase encostaram nos elétricos puros. Mesmo assim, setembro ficou 148,9% acima do mesmo mês de 2025, e o acumulado desde 2012 passou de 1 milhão, chegando a 1.003.310 unidades. De janeiro a setembro, foram 381.609 eletrificados, mais do que todo o ano de 2025.

Como funciona, em português: a ABVE conta como eletrificado o elétrico puro, o híbrido plug-in (que tem motor a combustão e bateria que carrega na tomada) e o híbrido comum, que não liga na tomada. Os carros com tomada somaram cerca de 80% do mês. Cuidado com a comparação: a Fenabrave, que usa outra metodologia e inclui micro-híbridos, contou cerca de 62 mil eletrificados em setembro. A própria ABVE informa que, somando os 8.869 micro-híbridos, o total iria a 61.995.

Por que importa? Porque quem vende energia pra casa com carro elétrico precisa saber se a onda é maré ou marola. Um mês não faz tendência. O mercado total de leves somou 268.721 unidades e cresceu 2,2% em setembro, e quem caiu foi o elétrico puro, que depende de lançamento, estoque e câmbio de modelo importado. O híbrido plug-in que cresce também carrega na tomada, então para quem vende carregador, padrão de entrada e solar o cliente continua o mesmo, só que com bateria menor no carro. E carro plug-in carrega com mais frequência justamente porque a bateria é pequena: menos quilômetros por recarga, mais visitas à tomada de casa. Para quem dimensiona sistema solar, é consumo diário previsível, que pesa na conta e pede projeto.

Do outro lado: a concentração segue alta. São Paulo respondeu por 26,8% das vendas, com 14.250 unidades, seguido por Minas Gerais e Distrito Federal. Fora dos grandes centros, o carro elétrico ainda é a exceção da rua, e é justamente aí que a conta de luz pesa mais.

Minha leitura: um mês de queda depois de oito de recorde não é crise, é respiro. Sim, 18% a menos de elétrico puro é número feio, mas o vilão seria ler isso como fim de ciclo e parar de oferecer recarga ao cliente. O que importa para quem vende energia é a frota que já está na garagem e precisa carregar todo dia, e essa só cresce. Venda para a frota que roda todo dia, não para a manchete do mês.

REGULAÇÃO

A Enel ficou para o próximo governo

“Ninguém quer segurar. Alguém vai ter que.”

A ANEEL começou a votar a caducidade da Enel SP em 6 de outubro. O placar chegou a 2 a 0 pelo fim do contrato, e aí veio o pedido de vista.

O que aconteceu: a relatora Agnes Costa e a diretora Ludimila Lima votaram a favor da recomendação de caducidade. O diretor Gentil Nogueira pediu mais tempo, como mostrou o Canal Solar. O prazo regulamentar é de até 60 dias, e o processo deve voltar à pauta depois do segundo turno de 25 de outubro. A Enel São Paulo atende 24 municípios e cerca de 8,5 milhões de unidades consumidoras.

Como funciona, em português: caducidade é o fim antecipado da concessão por falha na prestação do serviço. A ANEEL não tira a empresa sozinha: ela recomenda, e a decisão final é do Ministério de Minas e Energia. O histórico pesa: mais de 2 milhões de consumidores sem luz por dias em novembro de 2023, outros 2 milhões em outubro de 2024 e um recorde de mais de 4,2 milhões em dezembro de 2025. Gentil Nogueira já citou uma indenização possível de R$ 10 a 15 bilhões.

Por que importa? Porque o próximo ministro não herda só a Enel. Herda o edital do leilão de baterias, que a ANEEL precisa aprovar até o fim de outubro, a briga sobre quem paga as baterias, a regra nova de cortes de geração e a Consulta Pública 33. Herda também os planos de governo: o de Flávio Bolsonaro fala em racionalizar encargos e reduzir aos poucos a CDE, e o ministro Alexandre Silveira defendeu o fim de novos subsídios à geração. O processo de caducidade, aberto em abril, já suspendeu a renovação antecipada do contrato. Para quem atende cliente na Grande São Paulo, a distribuidora em crise significa conexão lenta, obra de rede parada e cliente sem paciência.

Do outro lado: caducidade não é botão de desliga. Mesmo aprovada, a rescisão pode levar meses, cabe recurso e pode até nunca acontecer, como lembrou o próprio Gentil Nogueira ao Estadão. O contrato vence em 2028, e a troca de controle da empresa é uma saída que a ANEEL já admitiu considerar.

Minha leitura: adiar a decisão para depois da urna foi prudente para a agência e ruim para o consumidor. Sim, um pedido de vista é direito do diretor, mas o vilão é o calendário político decidindo o ritmo de um serviço essencial. Quem vende energia em São Paulo não pode esperar o novo ministro: projeto que depende de obra da distribuidora precisa de prazo folgado no contrato e plano B com bateria. Na concessão em crise, quem depende menos da rede dorme melhor e vende mais rápido.

BESS

Da subestação à tomada da sala

Mesma química. Cliente diferente.

O Brasil chegou a 950.183 eletrificados leves em circulação até agosto, com 57.386 emplacamentos no mês e recorde de 27.166 elétricos puros. Faltam 49.817 unidades para o primeiro milhão, marca que a ABVE espera cruzar ainda em setembro.

O que aconteceu: foi o segundo mês seguido acima de 50 mil unidades e um recorde da série. No acumulado de janeiro a agosto, foram 328.477 veículos, alta de 160,5% sobre o mesmo período do ano passado, volume que já supera em 47% todas as vendas de 2025. Em agosto, 22 de cada 100 carros leves vendidos no país foram eletrificados. A série histórica começou em 2012 com 117 unidades no ano inteiro.

Como funciona, em português: eletrificado, na conta da ABVE, é gênero e não espécie. Entram os 100% elétricos, os híbridos plug-in, que recarregam na tomada, e os híbridos comuns a gasolina e flex, que têm tração elétrica mas nunca são ligados na parede. Ficam de fora os micro-híbridos. Isso importa muito para quem vende energia, porque só uma parte dessa frota puxa carga da rede. O carro elétrico puro é o que muda a conta de luz da casa, e ele foi 27 mil unidades em agosto, não 57 mil. Confundir os dois é a forma mais rápida de dimensionar errado uma proposta.

Por que importa? Cada elétrico puro ou plug-in que entra numa residência é uma carga nova de 7 a 11 kW que chega sem avisar a distribuidora e quase sempre à noite, quando a geração solar do telhado já acabou. Para o integrador, isso redefine dimensionamento: sistema calculado pelo histórico de consumo fica pequeno seis meses depois da compra do carro. Para o comercializador, é demanda nova em horário caro, o que empurra a conversa para tarifa horária e para armazenamento. E para quem pensa em eletroposto, é o número que finalmente sustenta plano de negócio fora dos grandes centros.

Do outro lado: o número do milhão é mais modesto do que parece na manchete, porque a maior fatia é de híbrido sem plugue, que não consome um kWh da rede. Quem vender bateria dizendo que o país tem um milhão de carros para recarregar está usando o dado errado. O número relevante é o de BEV e PHEV, e ele cresce rápido, mas é bem menor.

Minha leitura: o milhão é marco de comunicação, não de infraestrutura. O que realmente muda o seu jogo é a taxa de elétricos puros dentro desse total, que vem subindo mês a mês e já bate recorde. Quem vende solar hoje sem perguntar se a casa tem ou vai ter carro na tomada está dimensionando para o passado e vai perder a segunda venda, que é a mais barata de fazer.

DADOS

Um carregador para cada 21 carros

29,9 mil. É o número de pontos públicos e semipúblicos de recarga no Brasil, alta de cerca de 77% em doze meses.

O que aconteceu: o levantamento é da ABVE com a Tupi Mobilidade Elétrica. Na base de agosto, eram 29.896 pontos, 4.441 a mais que em maio, segundo a AutoData. O balanço de setembro publicado pelo CanalVE traz 29.866, alta de 76,9%. No mesmo mês de agosto, a frota de carros com tomada, elétricos puros e híbridos plug-in, somava 639.133 unidades. Dá cerca de 21 carros por ponto. Em setembro, as vendas de elétricos e plug-in somaram mais 42.448 carros, ou seja, a frota cresce num mês o equivalente a quase um carro e meio por ponto existente.

Como funciona, em português: ponto público é o carregador aberto a qualquer motorista, na rua, no posto ou na rodovia. Semipúblico é o que fica num shopping, supermercado, hotel ou estacionamento, acessível a quem frequenta o lugar. Fora dessa conta fica o carregador mais importante de todos: o da garagem de casa ou do condomínio, onde a maior parte da recarga acontece. A rede pública cresce rápido porque virou marketing de varejo e de posto, não porque o motorista dependa dela no dia a dia.

Por que importa? Porque cada ponto desses é uma carga nova pendurada na rede de alguém. Um carregador rápido num estacionamento comercial pode mudar a demanda contratada do cliente, estourar o padrão de entrada e jogar a conta pra cima no horário de pico. Isso é trabalho para quem projeta: dimensionamento, gestão de carga, solar no telhado do estacionamento e, cada vez mais, bateria para segurar o pico sem pedir mais demanda à distribuidora.

Do outro lado: a rede é desigual. As vendas de setembro se concentraram em São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal, e os pontos tendem a seguir o mesmo mapa, porque carregador vai para onde o carro já está. Em setembro, só São Paulo somou 26,8% das vendas de eletrificados do país. No interior, um carregador pode ser o único da cidade, e o empresário que chegar primeiro com projeto sério vira referência local.

Minha leitura: 21 carros por ponto parece aperto, mas o motorista não carrega na rua, carrega em casa. Sim, a rede pública cresce bonito no gráfico, mas o vilão é vender carregador como totem e esquecer a conta de luz de quem instala. O dinheiro está no condomínio, no comércio e na frota, onde carregar vira gestão de energia, com horário, tarifa e potência controlados por software. Quem vende só o carregador vende uma vez. Quem vende a gestão vende todo mês, e é esse cliente que fica com você.

the Grid

Energia sem release requentado. Toda terça, o que aconteceu no setor e, principalmente, o que fazer com isso antes do concorrente. A leitura de quem está na trincheira, não na arquibancada.

BESS, mobilidade elétrica, mercado livre, regulação, dados e COMEX, na língua de quem opera: empresário, integrador, comercializador e profissional de energia. Com opinião de quem visita fábrica na China e fecha negócio no Brasil.

Direto no seu e-mail, toda terça-feira. É de graça, mas vicia.

até semana que vem!