REGULAÇÃO

A assinatura de energia ganhou catraca

"Entrar é fácil. Sair agora tem regra."

O que aconteceu: a Nota Técnica 184/2026, assinada no fim de outubro, recomenda abrir consulta pública de 45 dias. A nota analisou dados de 13 distribuidoras das cinco regiões e propõe três travas: o consumidor fica pelo menos 12 meses no sistema de compensação; os créditos de cada participante passam a corresponder à sua fatia de custos, riscos e benefícios da usina; e fica vedado participante sem unidade consumidora na área da distribuidora. Também abre espaço para a distribuidora cobrar por mudanças na lista de beneficiários. Nada disso vale ainda: é proposta técnica, e a consulta nem abriu.

Como funciona, em português: na geração compartilhada, um grupo de consumidores se junta em consórcio ou cooperativa, vira dono de uma usina e divide os créditos que ela injeta na rede. Esses créditos abatem a conta de cada um pelo SCEE, o sistema de compensação previsto na Lei 14.300/2022. Vender energia ao consumidor cativo (o que compra da distribuidora) é proibido. A energia por assinatura vive na fronteira: o cliente assina, recebe um desconto fixo na conta e não decide nada sobre a usina. Para a área técnica, desconto garantido sem risco compartilhado se parece demais com venda.

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Por que importa? O modelo é grande: dados da ANEEL citados pelo mercado falam em mais de 1 milhão de unidades consumidoras e 6,5 GW em geração compartilhada. Quem vende assinatura montou o funil em cima de três promessas: sem obra, sem fidelidade e com desconto certo. A nota ataca duas delas de uma vez. Para o comercializador, o produto muda: o desconto deixa de ser preço de prateleira e vira resultado da usina, que sobe e desce com sol, corte de geração e tarifa. Para quem constrói usina para esse mercado, o risco de cliente sair em massa cresce justamente na transição.

Do outro lado: a pressão não nasceu na ANEEL. O TCU estimou em R$ 1,8 bilhão os subsídios à geração compartilhada só em 2023, bancados pelos demais consumidores, e mandou a agência fiscalizar. A ANEEL respondeu defendendo a legalidade do modelo. Agora a área técnica muda o tom, mas recomenda transição sem efeito retroativo sobre créditos já compensados.

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Nossa leitura: sim, tem assinatura que é venda de energia com fantasia de cooperativa, e o consumidor cativo paga parte dessa festa. Mas a proposta pune a porta de saída, não o abuso. Fidelidade de 12 meses é a lógica da operadora de celular, e ninguém lembra dela com carinho. O detalhe que pouca gente liga: a baixa tensão abre para o mercado livre entre 2027 e 2028. Quem aprender agora a vender risco compartilhado com transparência chega pronto. Quem vendeu desconto mágico vai descobrir que mágica tem prazo de validade.

CONTA DE LUZ

O Brasil paga caro pelo pires

"O café é barato. O pires é que custa."

A conta de luz residencial brasileira pesa mais no bolso que em 77 de 138 países, quando ajustada pelo poder de compra. E só 30,4% dela paga a energia em si.

O que aconteceu: o estudo do economista Daniel Duque, do CLP (Centro de Liderança Pública), divulgado em agosto, voltou ao noticiário nacional nesta semana. Em valor nominal, a tarifa residencial brasileira é de US$ 0,179 por kWh; ajustada pela paridade de poder de compra, vai a US$ 0,357. A China cobra US$ 0,079 e o Canadá, US$ 0,122, dois países com peso grande de renováveis como o nosso. Segundo a Gazeta do Povo, o estudo simula que uma reforma estrutural cortaria a conta em até 32%, e em 23% mesmo sem mexer em imposto.

Como funciona, em português: a conta tem cinco gavetas. Geração (30,4%) é a energia produzida. Distribuição (26,1%) paga poste, transformador e a distribuidora da sua cidade. Transmissão (10,1%) paga as linhas de alta tensão que trazem a energia de longe. Tributos (18,1%) são ICMS, PIS e Cofins. Encargos setoriais (15,2%) são taxas criadas por lei para financiar políticas, e a maior é a CDE, a Conta de Desenvolvimento Energético, fundo que banca tarifa social, desconto de fontes incentivadas, GD, carvão e sistemas isolados. A ANEEL confirmou a CDE de 2026 em R$ 52,66 bilhões, 7% acima de 2025. Por cima, o país perde 14,3% da energia que distribui, metade disso em furto, fraude e erro de medição.

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Por que importa? O seu cliente acha que compra kWh, e compra um pacote em que o kWh é uma gaveta entre cinco. Quem vende solar no telhado reduz a conta porque escapa de parte das outras gavetas, não só da energia. Quem vende mercado livre negocia basicamente a gaveta da geração; fio, encargos e tributos continuam lá. Saber abrir essa conta na frente do cliente, gaveta por gaveta, é o que separa assessor de energia de vendedor de desconto.

Do outro lado: cada gaveta tem dono. Subsídio da GD, tarifa social, carvão e fonte incentivada moram na mesma CDE, e cortar qualquer linha sempre esbarra num interesse legítimo do outro lado. Comparar com a China também tem limite: lá a tarifa residencial é definida pelo Estado e historicamente protegida às custas da indústria.

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Nossa leitura: o Brasil não tem problema de energia, tem problema de pires. Montamos uma das matrizes mais limpas do mundo e penduramos nela tudo que o Orçamento não quis pagar às claras. Sim, parte disso é política social legítima. Mas política social cobrada na conta de luz é imposto regressivo com nome bonito. Enquanto ninguém mexer nos outros 70%, cada real que você economiza para o cliente na gaveta da energia é engolido pela gaveta do lado.

BESS

Leilão de baterias com prazo e fantasma

"O jantar está servido. Falta saber quem paga."

A ANEEL aprovou os editais do primeiro leilão de baterias do país, com sessões em 2 e 4 de dezembro. Mas um projeto de lei sobre quem paga a conta pode empurrar tudo para 2027.

O que aconteceu: em 27 de outubro, a diretoria da ANEEL aprovou por unanimidade os editais, com relatoria de Gentil Nogueira. O preço-teto ficou em R$ 1,76 milhão por MW por ano no leilão de 2 de dezembro, só para baterias com conteúdo nacional, e em R$ 1,58 milhão no de 4 de dezembro, aberto a qualquer origem. A Absae, associação do armazenamento, disse que os valores estão em linha com o esperado. O nó: a lei atual põe o custo nos geradores, e o PL 3.716/2026, com urgência aprovada na Câmara, inclui os consumidores como pagadores. Segundo o diretor-geral Sandoval Feitosa, se a lei mudar antes do leilão, o edital é republicado e a data muda.

Como funciona, em português: é um LRCAP, Leilão de Reserva de Capacidade. O governo não compra energia, compra potência disponível: a garantia de que a bateria estará carregada e pronta para descarregar quando o ONS, o operador do sistema, chamar. Pelas regras da Portaria 136/2026, do MME, o vencedor recebe receita fixa por MW durante 15 anos, com quatro horas de autonomia e suprimento a partir de agosto de 2028. Quem banca essa receita é definido em lei, e é aí que mora a briga.

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Por que importa? R$ 1,76 milhão por MW por ano, durante 15 anos, é receita que banco financia. Isso puxa demanda por contêiner de bateria, conversor, obra, conexão e manutenção, e prova ao investidor que armazenamento no Brasil tem fluxo de caixa contratado. Para quem desenvolve projeto, cada mês de adiamento custa garantia, terreno e exclusividade de fornecedor. Para o comercializador, o leilão vira a régua de preço que faltava para precificar bateria em contrato bilateral.

Do outro lado: a fábrica chinesa também mexeu no relógio. O desconto de imposto na exportação de baterias, que caiu de 9% para 6% em abril, zera em 1º de janeiro de 2027. A regra vale pela data da declaração de exportação. Quem vencer o leilão aberto e embarcar depois da virada compra sem esse colchão. Se o leilão escorregar, todo mundo orça já sem o desconto.

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Nossa leitura: o Brasil discute bateria desde 2020 e agora pode atrasar o leilão por não saber quem paga. Sim, faz sentido o consumidor bancar um serviço que protege o sistema inteiro, e não só o gerador. Mas mudar a regra com o edital aprovado é o tipo de sinal que encarece o capital de todo mundo. E quem compra na China já sabe: o desconto acaba antes de o Congresso decidir. ⏳

MOBILIDADE

A garagem de ônibus virou cliente de energia

"Quatrocentos ônibus. Uma conta de luz."

São José dos Campos (SP) vai trocar a frota inteira de ônibus por elétricos. O BNDES aprovou R$ 879,4 milhões para comprar os 400 veículos, o primeiro projeto do banco para eletrificar 100% da frota de uma cidade com ônibus fabricados no país.

O que aconteceu: o financiamento foi aprovado em 30 de outubro para a Green Energy S.A., que venceu a licitação da prefeitura para alugar a frota à Urbam, a empresa municipal que gere o transporte. O contrato de locação, assinado em março de 2025, tem 15 anos e R$ 2,71 bilhões. Os ônibus são da Eletra, com tecnologia brasileira, e entram em operação aos poucos; a cidade já licitou um pátio de recarga na região sul. No país, segundo a ABVE, o mercado de ônibus elétricos fechou o primeiro semestre de 2026 com 589 unidades emplacadas, alta de 92,5% sobre o mesmo período de 2025.

Como funciona, em português: ônibus elétrico não abastece em posto. Ele roda o dia todo e recarrega na garagem, em geral de madrugada, ligado a carregadores de alta potência. Na prática, a garagem vira um consumidor de média tensão, com contrato de demanda (a potência máxima que a distribuidora reserva para aquele endereço) e tarifa que muda conforme o horário. Concentrar centenas de recargas numa janela curta cria pico de demanda, e pico custa caro.

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Por que importa? Uma frota de 400 ônibus é uma carga industrial que não existia no mapa da distribuidora. Isso abre três negócios de uma vez. Contrato no mercado livre, porque consumidor em média tensão já pode migrar e uma garagem tem consumo previsível. Bateria estacionária para cortar o pico e reduzir a fatura de rede. E usina ou contrato de longo prazo para travar o preço do combustível por 15 anos, o mesmo prazo da locação dos ônibus. Quem vende energia e não está batendo na porta de operador de frota está deixando o maior cliente da cidade com a distribuidora.

Do outro lado: a rede precisa chegar antes do ônibus. Pátio de recarga depende de reforço de subestação e de parecer de acesso, e o prazo da distribuidora não segue o cronograma da prefeitura. Há também concentração de risco: um fabricante e um locador amarrados por 15 anos. E a conta da energia da garagem, se ninguém negociar, entra no custo da passagem que a prefeitura subsidia.

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Nossa leitura: o carro elétrico ganhou as manchetes, mas é o ônibus que vai mexer na conta das distribuidoras. Sim, 400 ônibus parecem pouco num país com frota a diesel gigantesca. Mas cada garagem eletrificada é um contrato de energia de 15 anos que alguém vai fechar. Se não for você, vai ser a distribuidora, cobrando tarifa cheia. 🔌

MERCADO LIVRE

A raposa montou a escala de vigia

"Vigilância de dentro, antes que chegue a de fora."

A Abraceel, associação das comercializadoras, aprovou um sistema de autorregulação com poder de punir as próprias associadas. Foram 38 votos a favor, 86,4% da assembleia.

O que aconteceu: o programa foi aprovado com Código de Conduta e Código de Processos, e a adesão é automática para toda associada. O cronograma: de novembro a janeiro, monta a equipe de supervisão e pede atualização cadastral; entre fevereiro e março de 2027, pode abrir apurações e emitir cartas de recomendação; em abril de 2027, o Conselho de Autorregulação passa a aplicar penalidades, da advertência privada ao desligamento da associação. O pano de fundo: 2W Ecobank e Gold Energia com dívidas bilionárias em 2025, a Electra em recuperação judicial com passivo de R$ 1,27 bilhão em maio de 2026 e a CCEE mantendo desligamentos e determinando o da IBS Comercializadora em outubro.

Como funciona, em português: no mercado livre, consumidor e comercializadora fecham contrato bilateral. A CCEE, Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, registra os contratos e liquida as diferenças no mercado de curto prazo pelo PLD, o preço de liquidação calculado hora a hora. Quando a comercializadora vende energia que não tem e o PLD dispara, ela fica exposta. Se não paga, a CCEE desliga, e o cliente fica descontratado, obrigado a comprar às pressas, no preço do dia, a energia que achava ter garantido. A CCEE já exige patrimônio mínimo, como mais de R$ 11,59 milhões para ser Tipo 1 em 2026, mas olha balanço; a autorregulação quer olhar conduta.

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Por que importa? Porque a abertura total vem aí: pequenos comércios e indústrias a partir de 2027 e todo mundo, inclusive residência, até novembro de 2028. São milhões de clientes que nunca ouviram falar de PLD. Uma quebra de comercializadora com esse público vira manchete nacional e munição contra a abertura. Para quem vende energia, selo de conduta passa a ser argumento comercial e critério de due diligence, a checagem que o cliente grande já faz antes de assinar.

Do outro lado: autorregulação só morde quem é associado. A comercializadora pequena que vende fora da Abraceel segue só sob a régua da CCEE e da ANEEL, e é no varejo que mora o risco. E a pena máxima é sair da associação, não do mercado. Quem for expulso continua com outorga, CNPJ e carteira de clientes.

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Nossa leitura: é a raposa organizando a escala de vigia do galinheiro, e mesmo assim é melhor que nada. Sim, o setor merece crédito por agir antes de ser obrigado. Mas o consumidor de 2028 não vai distinguir sócio da Abraceel de aventureiro com CNPJ recém-aberto. Quem quiser sobreviver à abertura vai ter que pôr balanço, lastro e contrato na mesa, não logotipo de associação. 🦊

O DADO

A energia que ninguém deixou nascer

18,67 TWh. Foi quanto as usinas eólicas e solares deixaram de gerar entre janeiro e setembro de 2026 por ordem do operador, alta de 52,7% sobre o mesmo período de 2025.

O que aconteceu: os números são da Volt Robotics, apresentados pelo CEO Donato da Silva Filho no Brazil Windpower. Em nove meses, o volume já equivale a 99% de tudo que foi cortado pelo mesmo motivo em 2025 inteiro. A perda acumulada dos geradores é estimada em R$ 15,5 bilhões. Em paralelo, a ANEEL aprovou em 6 de outubro a nova regra de curtailment, a Resolução Normativa 1.170/2026, publicada em 9 de outubro, encerrando uma discussão aberta em 2019. O rateio transitório, com efeito financeiro, começa 90 dias após a publicação.

Como funciona, em português: curtailment é o corte de geração: o ONS manda a usina reduzir ou parar mesmo com vento ou sol disponíveis. O motivo mais comum hoje é o energético, quando há mais oferta do que consumo naquela hora. Acontece mais entre 7h e 15h e com mais força aos domingos, quando a demanda cai e a geração solar, inclusive a dos telhados, está no pico. Como a GD dos telhados não é despachada pelo operador, quem absorve o ajuste são as usinas grandes. Há ainda cortes por limite de rede e por confiabilidade, quando a linha não aguenta escoar.

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Por que importa? Dá, em média, 68 GWh por dia jogados fora. Os R$ 15,5 bilhões equivalem a quase 30% do orçamento inteiro da CDE de 2026. Para quem desenvolve usina, corte virou linha do modelo financeiro, não evento raro. Para o comercializador, contrato de longo prazo assinado antes da onda de cortes muitas vezes não diz quem assume esse risco, e é aí que nasce a próxima briga judicial. E para quem vende bateria, este é o argumento mais concreto que existe: a energia que vai para o lixo ao meio-dia poderia ser vendida às 19h.

Do outro lado: o sistema não está quebrado, está desbalanceado. O ONS prevê, no seu plano de operação de julho, que o corte siga comum até 2030, com tendência de queda à medida que a transmissão chega e a expansão de eólica e solar desacelera. O leilão de transmissão de 30 de outubro, com deságio de 50,1%, ajuda, mas linha nova leva anos para ficar pronta.

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Nossa leitura: o Brasil virou o país que planta energia e queima a safra no pé. Sim, parte do problema é usina contratada sem rede para escoar, e o investidor conhecia o risco. Mas perder R$ 15,5 bilhões em nove meses de energia limpa, enquanto se discute quem paga a bateria que resolveria isso, é uma ironia que só o setor elétrico brasileiro consegue produzir. 🔋

the grid

Energia sem release requentado. Toda terça, às 7, o que aconteceu no setor e, principalmente, o que fazer com isso antes do concorrente. A leitura de quem está na trincheira, não na arquibancada.

BESS, mobilidade elétrica, mercado livre, regulação e COMEX, na língua de quem opera: empresário de energia, assessor, comercializador e profissional do setor. Com opinião de quem visita fábrica na China e fecha negócio no Brasil.

Direto no seu e-mail, toda terça-feira. É de graça, mas vicia.

até terça!