quem guarda tem
bom dia. sua avó já sabia: quem guarda, tem. o setor elétrico levou uns dez anos pra redescobrir a mesma lição, e agora chama de armazenamento e cobra bilhões por isso. a sabedoria é velha, a fatura é nova. o que você anda deixando escapar de graça?
[1ª edição do the Grid]
Cortaram sua geração e ninguém combinou quem paga

Curva de carga com alta penetração solar
A ANEEL travou de novo a regra do curtailment. Em 22 de junho, a votação foi suspensa por um pedido de vista do diretor Fernando Mosna, e até agora não há data definida para a retomada. Sete anos de discussão e o corte da sua energia segue sem manual.
O que aconteceu: a relatora Agnes da Costa levou à mesa a proposta da Consulta Pública 45, aberta em 2019. A proposta separa os cortes em três blocos, cria um período de sombra de um ano e faz o rateio por fonte, solar com solar e eólica com eólica.
Por que importa pro integrador: aqui mora a confusão que quase todo mundo mistura. Existe corte por sobreoferta (sol sobrando no meio do dia) e corte por restrição de rede ou confiabilidade. Pela Lei 15.269, os cortes por indisponibilidade externa ou confiabilidade passam a ter direito a ressarcimento, enquanto a sobreoferta é tratada como risco de mercado, sem ressarcimento. E a micro e minigeração distribuída ficou fora do rateio direto, mas o ONS ainda pode cortá-la para preservar o sistema. Ou seja: seu cliente de GD não é intocável.
Do outro lado: enquanto a regra não sai, quem manda no corte é o operador, sem norma que discipline. Nas palavras da própria relatora, sem regra "o ONS vai continuar fazendo o que quiser".
Minha leitura: o vilão aqui não é o Mosna nem a Agnes, é a indefinição. Cada mês sem regra é mais um projeto que trava por medo do corte. E adivinha o que resolve sobra de sol no meio do dia sem depender de ninguém votar nada? Bateria. O curtailment é o melhor vendedor de BESS que o Brasil já teve, e trabalha de graça. 😅
Fontes:
→ Poder360: ANEEL adia decisão sobre regulação de cortes de energia
→ Canal Solar: ANEEL adia decisão sobre regulamentação dos cortes
→ eixos: Agnes da Costa prega urgência na aprovação de critérios
O leilão de bateria que redesenha seus próximos 3 anos

Sistemas de armazenamento em baterias, BESS
O Brasil marcou seu primeiro leilão exclusivo de baterias para 2 e 4 de dezembro. Não é pra você participar. É pra você ler o mapa de onde o mercado vai estar em 2028.
O que aconteceu: a Portaria MME 136/2026 estruturou o certame em dois leilões, dia 2 o Armazenamento Nacional (com conteúdo nacional via BNDES) e dia 4 o aberto a equipamento importado. Os contratos são de 15 anos, com potência entregue a partir de agosto de 2028, mínimo de 30 MW, 4 horas de despacho e recarga em até 6 horas.
Por que importa: o leilão contrata gente grande, mas define o preço e o padrão técnico que pingam pro comercial e industrial em 2027 e 2028. A ABSAE estima R$ 8 bilhões de investimento de curto prazo só no certame de dezembro, e um mercado de R$ 77 bilhões e 72 GWh até 2034. A Genial já projeta a demanda por seguro garantia subir mais de 70% este ano por causa dele. Quando esse volume amadurece, o custo do kWh de bateria do seu projeto cai junto.
Enquanto isso: o desenho joga todo o risco de despacho pro empreendedor. Receita fixa, mas quem não entrega disponibilidade, paga. É ativo de infraestrutura, não venda de kit.
Minha leitura: o integrador que trata dezembro como "coisa de usina grande" vai acordar em 2028 com o cliente C&I perguntando de bateria e ele sem repertório. Comece a estudar despacho, arbitragem e híbrido agora. Esse leilão é a largada, não a linha de chegada.
Fontes:
→ MME: diretrizes para leilão inédito de armazenamento em baterias
→ Agência iNFRA: MME realizará dois leilões de armazenamento em dezembro
→ Cenário Energia: leilão deve saltar demanda por seguro garantia em 70%, diz Genial
Seu próximo cliente de bateria tá plantando soja
Armazenamento no agro
O Plano Safra 2026/2027 passou a financiar bateria. Do nada, o produtor rural virou comprador de armazenamento, e quase nenhum integrador de solar está de olho nesse funil.
O que aconteceu: o Ministério da Agricultura incluiu o financiamento de baterias para armazenamento de energia renovável nas linhas Inovagro e Prodecoop, anunciado em 9 de julho. Na agricultura empresarial, o pacote total é de R$ 525,1 bilhões. Na familiar, as linhas de armazenamento chegam a R$ 250 mil por operação, com juros de 2% ao ano.
Por que importa? o produtor rural é o cliente perfeito pra híbrido: já tem geração solar, sofre com energia fraca no fim da linha, tem carga que não pode parar (irrigação, resfriamento, confinamento) e agora tem crédito subsidiado pra pagar a bateria. Pro integrador, é um funil de dor concreta, dinheiro na mão e concorrência baixíssima. Pro fabricante e o distribuidor de BESS, é um canal de demanda novo que não passa pela cidade. E pro mercado, é o armazenamento saindo do piloto e entrando no crédito rural, que move bilhões todo ano. Quem já vende solar pro agro liga pra base amanhã.
Do outro lado: a própria ABSOLAR comemorou a medida, mas alertou para as taxas de juros. Com a Selic ainda alta, "juros equalizados" não é o mesmo que juros baratos. A conta fecha, mas não é o crédito dos sonhos.
Minha leitura: enquanto o integrador urbano briga por 3% de desconto na conta do vizinho, o mercado abriu uma porteira no campo com crédito carimbado pra bateria. Diversificar não é palestra motivacional, é ir onde o cliente tem dor e dinheiro ao mesmo tempo. O agro tem os dois. 😅
Fontes:
→ Jornal Opção: novo Plano Safra incentiva energia solar
→ ND Mais: Plano Safra 2026/2027 libera R$ 525 bilhões e reduz juros
→ Contraf Brasil: Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027
R$ 57 bilhões esperando quem chegar primeiro

Armazenamento vira classe de ativo
A Deloitte colocou número no que muita gente ainda trata como promessa: o armazenamento de energia pode atrair R$ 57 bilhões em investimentos no Brasil até 2035. E o integrador que só vende painel vai ver isso passar pela janela.
O que aconteceu: o BESS saiu do campo do "vai vir" pra virar classe de ativo. As projeções variam conforme quem faz a conta: Deloitte fala em R$ 57 bilhões até 2035, a ABSAE em R$ 77 bilhões até 2034, e a ABSOLAR, com base no PDE 2035 da EPE, aponta potencial acima de R$ 200 bilhões na década. Números diferentes, direção idêntica.
Por que importa? essa é a mesma virada que o solar viveu por volta de 2016, e ela mexe com a cadeia inteira. Pro integrador, a técnica ainda intimida a maioria, então quem dominar dimensionamento de híbrido nos próximos 18 meses vende com margem gorda antes da commoditização. Pro comercializador e o investidor, o armazenamento deixa de ser tese e vira classe de ativo pra alocar, financiar e negociar. Pro mercado, é a infraestrutura que faltava pra sustentar a expansão renovável sem desperdício. Quem entrou cedo no solar pegou margem e pouca concorrência; a bateria está exatamente nesse ponto agora.
Enquanto isso: o dinheiro chinês já entendeu. A Wood Mackenzie mostrou que integradores chineses dominaram o mercado global de BESS em 2025. A pergunta não é se a bateria vem, é de quem você compra e com que margem revende.
Minha leitura: projeção bilionária não paga sua conta. O que paga é você ser o cara que já sabe fazer híbrido quando o vizinho ainda está no "não entendo de bateria". A janela de margem tem prazo de validade, e ela fecha no dia em que todo mundo aprende.
Fontes:
→ CanalEnergia: armazenamento pode atrair R$ 57 bi até 2035, diz Deloitte
→ Canal Solar: potencial de armazenamento pode superar R$ 200 bi, diz ABSOLAR
→ Cenário Energia: mercado de armazenamento e projeções da ABSAE
Sua bateria não é gasto, é 60% mais crédito

Eletroposto com solar e armazenamento
Tem uma conta que reposiciona a bateria de custo pra alavanca: acoplar armazenamento pode aumentar em até 60% o crédito de geração distribuída de um sistema, avalia a TR Soluções. Isso muda o pitch inteiro.
O que aconteceu: a análise mostra que a bateria, ao deslocar a energia gerada no meio do dia pra ser usada ou injetada no momento certo, eleva o aproveitamento em crédito de GD. Não é gerar mais, é desperdiçar menos.
Por que importa? isso ataca de frente o maior inimigo comercial de 2026, o Fio B. Com a cobrança em 60% neste ano e subindo rumo a 90% em 2028, cada kWh que o cliente injeta e não aproveita direito vale cada vez menos, e o payback do modelo antigo derrete. Pro consumidor de GD, a bateria transforma sobra desperdiçada em autoconsumo e crédito melhor aproveitado. Pro integrador, muda o pitch inteiro: você para de vender "economia na conta" e passa a vender "blindagem contra o Fio B", outro ticket, outra margem. Pro mercado, é a bateria deixando de ser gadget de backup pra virar decisão financeira.
Enquanto isso: o híbrido ainda é minoria nas vendas. Boa parte dos integradores oferece bateria mas não fecha, porque insiste em vender preço em vez de vender retorno.
Minha leitura: o mercado inteiro aprendeu a vender bateria como backup, "pra quando faltar luz". Está errado. O argumento que fecha é financeiro: com o Fio B corroendo o modelo antigo, a bateria é o que salva o payback. Quem entender isso primeiro reescreve a proposta antes do concorrente. 😬
Fontes:
→ CanalEnergia: baterias podem aumentar créditos de GD em 60%, avalia TR Soluções
→ Movimento Econômico: Fio B sobe para 60% em 2026 e chega a 90% em 2028
215 mil elétricos e nenhum posto seu na esquina

O Brasil emplacou 215 mil eletrificados no primeiro semestre. A frota chegou. A infraestrutura de recarga ainda está vazia esperando dono.
O que aconteceu: segundo a ABVE, foram 215.023 eletrificados emplacados de janeiro a junho de 2026, com os elétricos puros passando de 90 mil unidades. A BYD virou a 4ª marca mais vendida do país, com o Dolphin Mini liderando o varejo mês após mês.
Por que importa? cada um desses carros precisa carregar, e a conta pública mostrava pouco mais de 16 mil pontos de recarga em 2025, algo como 18 veículos plug-in por ponto. Pro integrador, aqui está a tese que eu venho batendo: eletroposto sozinho é margem apertada e pico de demanda caro, mas eletroposto com solar e bateria vira outra coisa, gera de dia, guarda e vende a recarga sem tomar porrada de tarifa de ponta. Pro comercializador, recarga é carga nova pra contratar e gerir. Pro fabricante nacional, o imposto de importação chegando a 35% em julho empurra a produção local (BYD em Camaçari, GWM em Iracemápolis). Pro mercado, o descompasso entre frota e infraestrutura é o gargalo, e a oportunidade, do ano.
Enquanto isso: mais carro nacional, mais frota, mais recarga necessária. E a rede de pontos não cresce no ritmo dos emplacamentos, o que só alarga o vão que sobra pra quem chegar primeiro.
Minha leitura: todo mundo olha pro carro. Ninguém olha pra tomada. A frota disparou e a infraestrutura não acompanhou, e é exatamente nesse vão, entre o carro que chegou e o posto que não existe, que mora a melhor oportunidade de energia pro integrador em 2026. 😅
Fontes:
→ Canal VE: carros elétricos e híbridos mais vendidos em 2026 (dados ABVE)
→ Canal VE: BYD é a 4ª marca que mais vende carros no Brasil em 2026
→ Carro Elétrico: rede de eletropostos e imposto de importação de 35%
the Grid
Energia sem release requentado. Toda terça, o que aconteceu no setor e, principalmente, o que fazer com isso antes do concorrente. A leitura de quem está na trincheira, não na arquibancada.
BESS, mobilidade elétrica, mercado livre, regulação e COMEX, na língua de quem opera: integrador, comercializador e profissional de energia. Com opinião de quem visita fábrica na China e fecha negócio no Brasil.
Direto no seu e-mail, toda terça-feira. É de graça, mas vicia.
até terça que vem!