letra miúda

bom dia. ninguém lê o rodapé do contrato até a fatura chegar. o problema quase nunca está no que te mostram em negrito, está no parágrafo que aprovaram com a luz apagada, literalmente. essa semana teve os dois: manobra no escuro e imposto na luz do dia. você anda assinando o quê sem ler?

[2ª edição do the Grid]

Aprovaram sua conta de luz no escuro

Em uma votação de menos de 8 minutos, fora da pauta e com o plenário praticamente vazio, a Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado aprovou na terça (14/07) um "jabuti" que pode custar dezenas de bilhões na sua conta de luz pelos próximos 30 anos.

O que aconteceu: o PL 5.017/2019 falava de desconto de tarifa para irrigação e aquicultura. Inofensivo. Só que o relator foi designado horas antes, e o texto voltou desfigurado: agora obriga a contratação compulsória de 2.500 MW de térmicas a gás natural e 4.900 MW de PCHs. A sessão tinha sido interrompida por falta de luz. Quando a energia voltou, aprovaram em votação simbólica, sem debate. A ironia se escreve sozinha.

Por que importa? Térmica inflexível a gás é o oposto de tudo que o setor vem construindo. Enquanto o integrador vende geração limpa e o comercializador monta portfólio no mercado livre, o Congresso amarra o consumidor cativo a energia fóssil cara, contratada até 2032 e paga até a década de 2050. Isso entra em encargo, dilui a competitividade da sua proposta solar e reprecifica o custo de energia de todo mundo na cadeia. É subsídio na veia da conta, não do orçamento.

Do outro lado: ainda não é lei. A aprovação não é terminativa, então o texto vai a plenário e pode cair ali, sob holofote (que foi justamente o que faltou na comissão). Entidades do setor já estão calculando o rombo.

Minha leitura: o padrão é velho, o valor é novo. Toda vez que querem socializar o custo de uma usina, o veículo é um projeto sobre outra coisa, votado no minuto em que ninguém está olhando. A boa notícia pra você: cada real de térmica fóssil na conta é um argumento de venda pra geração própria e armazenamento. O vilão te entregou o pitch de graça. 😅

Taxaram o seu carro, não o deles

O imposto de importação do elétrico bateu 35% em 1º de julho, encerrando o cronograma do MOVER. No mesmo pacote, o governo manteve uma cota de isenção de cerca de US$ 463 milhões (perto de R$ 2,4 bilhões) que zera esse imposto. Só que ela não é pra você.

O que aconteceu: desde 1º/07, quem importa o carro pronto (CBU) paga os 35% cheios. Mas o Gecex renovou em 23/06, por seis meses, a cota com alíquota zero para kits desmontados e semimontados (CKD e SKD), válida até 31/12/2026. Traduzindo: a montadora que traz o carro em peças pra parafusar aqui não paga imposto. Quem compra o modelo importado inteiro, paga. A ANFAVEA ainda achou pouco e defendia acabar com qualquer benefício.

Por que importa? É COMEX puro, e é o meu quintal. Essa cota é política industrial: empurra a nacionalização (a BYD já monta o Dolphin Mini em Camaçari e escapa da taxa), o que no longo prazo é bom pro Brasil. O problema é quem financia a transição no curto prazo: você. As importações do segmento cresceram 127% no 1º semestre, mais de US$ 6,18 bilhões, numa corrida de antecipação de estoque. Ou seja, o repasse ao preço vai chegar com atraso, mas vai chegar. Pra quem faz eletroposto e integração solar + VE, ler esse calendário é margem.

Enquanto isso: o mercado não esfriou. O 1º semestre fechou com 215 mil eletrificados emplacados, +125%, com junho a 18,3% de participação. A demanda existe. A conta é que mudou de dono.

Minha leitura: protecionismo tem hora e lugar, e forçar fábrica no Brasil é defensável. O que me incomoda é o marketing. Vendem como "defesa da indústria nacional" o que, no seu bolso, é um imposto de 35% enquanto a montadora tem quatro anos de rampa protegida. A fábrica é deles. A conta da transição é sua.

O leilão de bateria fecha dia 31

Marca no calendário: o cadastro na EPE para o 1º leilão de baterias do Brasil (LRCAP) fecha em 31/07. Depois dessa data, quem quer entrar no maior movimento de armazenamento da história do setor fica pra próxima.

O que aconteceu: a Portaria MME 136/2026 estruturou dois certames de reserva de capacidade dedicados a baterias, marcados para 02 e 04 de dezembro. Contratos de 15 anos, receita fixa corrigida por IPCA, início de suprimento em agosto de 2028. O leilão Nacional exige credenciamento no Sistema CFI do BNDES e conteúdo local, com escala mínima de 30 MW e tecnologia grid-forming. A janela de cadastro (15/06 a 31/07) é o pé na porta.

Por que importa? Isso muda o mapa pra cadeia inteira. Pro desenvolvedor, é receita contratada de 15 anos num mercado que ainda estava no achismo. Pro comercializador, abre estrutura de arbitragem e serviços ancilares que não existiam. Pro integrador, é o sinal de que armazenamento saiu do datasheet e virou modelo de negócio com contrato assinado. E a fila já está formada: há 18 GW de projetos de bateria preparados pra cadastro, com potencial de investimento na casa dos R$ 10 bilhões.

Enquanto isso: a indústria local se move junto. A WEG está erguendo em Itajaí a maior fábrica de BESS do país (até 2 GWh/ano), e a BYD anunciou até R$ 500 milhões numa linha de armazenamento estacionário. Conteúdo nacional deixou de ser discurso e virou critério de acesso à receita.

Minha leitura: todo mundo passou cinco anos falando "o Brasil vai ter mercado de bateria". O mercado chegou, tem data e tem BNDES atrás. Quem tratar isso como notícia de portal e não como prazo operacional vai assistir o concorrente cadastrar. Execução vale mais que planejamento perfeito, e execução aqui tem deadline: 31 de julho.

Fontes:
Canal Solar: MME define regras do 1º leilão de baterias (LRCAP)
MME: Portaria Normativa 136/2026

Quanto o seu kit fotovoltaico vai custar no 2º semestre

A pergunta que ninguém no grupo de WhatsApp está fazendo direito: o kit fotovoltaico vai subir no 2º semestre. E não é achismo, é a soma de três forças que se juntaram nesta semana.

O que aconteceu: primeiro, a China acabou com o reembolso de VAT de 9% na exportação de módulos em 1º/04, com reajuste estimado de 30 a 35% no kit. Segundo, os EUA oficializaram uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, vigente a partir de 22/07, o que mexe no câmbio e no clima de investimento. Terceiro, o dólar rondava R$ 5,09 e o yuan R$ 0,75 no dia 20/07. Três alavancas de custo apertando ao mesmo tempo.

Por que importa? O ciclo de deflação do equipamento acabou, e isso reprecifica tudo pra frente. Pro integrador, timing de compra virou vantagem competitiva: quem travou estoque antes da virada do VAT tem margem que o vizinho não tem. Pro comercializador e pro profissional de projeto, o CAPEX por kWp para de cair, o que muda payback, proposta e a conversa com o cliente. O Brasil importa mais de 90% do equipamento e é o 2º maior comprador de módulo chinês do mundo (18 GW). Quando o yuan e a política comercial se mexem, o seu orçamento se mexe junto. Só que com três meses de atraso, escondido no preço do próximo container.

Do outro lado: câmbio é faca de dois gumes. O real ainda acumula valorização no ano, o que amortece parte do golpe. Mas a direção estrutural do custo do módulo é pra cima, não pra baixo.

Minha leitura: é aqui que quem visita fábrica na China ganha do analista que só lê release. O preço não sobe "porque sim". Sobe porque um burocrata em Pequim cortou um incentivo fiscal e um outro em Washington assinou uma tarifa. Quem entende a origem antecipa o efeito. Quem só constata, repassa o susto pro cliente e perde a venda.

O Brasil jogou R$ 6,5 bilhões fora

Em 2025, o país desperdiçou 20,6% de toda a energia solar e eólica centralizada disponível, um prejuízo estimado em R$ 6,5 bilhões só para os geradores. Curtailment deixou de ser detalhe técnico e virou o maior argumento a favor da bateria.

O que aconteceu: o ONS cortou geração renovável em nível recorde por falta de rede e por segurança do sistema, concentrado no Nordeste, segundo o relatório da Volt Robotics. Só entre janeiro e abril de 2026, já foram cerca de 2,8 a 3 GWmédios cortados. E o pior: uma cautelar da ANEEL suspendeu o ressarcimento que o gerador deveria receber por esses cortes, num limbo regulatório que a agência prorrogou em maio.

Por que importa? Energia cortada é energia que ninguém vendeu e ninguém pagou por ela. Pro gerador, é receita evaporada. Pro comercializador, é volatilidade de preço e risco de contrato. Pro integrador de grande porte, é o sinal amarelo de que conectar mais geração na mesma rede saturada não resolve, armazenar resolve. A restrição de conexão já saltou de 20% para 33% dos pedidos entre 2023 e 2025. A rede virou o gargalo, e a bateria virou a chave.

Enquanto isso, lá fora: a Austrália triplicou a instalação de bateria residencial em 2025 (221 mil sistemas) com subsídio federal, e a Califórnia, que cortava renovável igual a gente, respondeu montando uma frota de 15,7 GW de baterias. O espelho é claro: onde o curtailment aperta, o armazenamento explode. O Brasil está exatamente no ponto da curva em que os dois viraram a chave.

Minha leitura: cortar 20% da geração e ainda brigar sobre quem paga a conta do corte é o retrato de um sistema que construiu a oferta e esqueceu de construir onde guardar. A resposta não vem de mais linha de transmissão daqui a dez anos. Vem de bateria, agora. Quem leu esse gráfico antes já está cadastrando projeto no LRCAP. Os outros vão descobrir pelo portal, no ano que vem.

Guerra no Golfo, oportunidade na laje

O petróleo Brent furou os US$ 90 pela primeira vez em mais de um mês e bateu máxima de cinco semanas nesta terça (21/07). O gatilho: os Houthis declararam um bloqueio naval à Arábia Saudita no Mar Vermelho, e dois petroleiros sauditas já deram meia-volta.

O que aconteceu: na segunda (20/07), os rebeldes iemenitas apoiados pelo Irã anunciaram embargo marítimo à Arábia Saudita, levando a guerra entre EUA e Irã direto pra entrada sul do Mar Vermelho. Com o Estreito de Ormuz já sob pressão, os sauditas passaram a escoar cerca de 70% do petróleo pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho (saltando pra 4,6 milhões de barris/dia em junho). Agora, segundo a Rystad Energy, cerca de 2,5 milhões de barris/dia ficam sob risco. Se o Bab al-Mandeb fechar de vez, até 7% da oferta global de petróleo trava.

Por que importa? Parece distante, mas chega na sua planilha por dois caminhos. Primeiro, o petróleo caro (beirava US$ 70 antes da guerra, tocou US$ 126 no pico de março) empurra inflação e mantém o custo de capital lá em cima, o que encarece o financiamento de todo projeto solar e de bateria. Segundo, o Mar Vermelho move 15% do comércio marítimo mundial. Quando a frota desvia pela África, o frete e o seguro de contêiner sobem no mundo inteiro, e isso respinga na rota China a Brasil que carrega o seu módulo, o seu inversor e a sua bateria. É a quarta força de custo, somada ao câmbio, à tarifa dos EUA e ao fim do VAT chinês que citei lá em cima.

Do outro lado: ainda tem freio. Mediadores do Catar e do Paquistão negociam cessar-fogo, e há um estoque recorde de 1,35 bilhão de barris flutuando no mar que amortece o choque. Pode desinflar rápido. Ou não.

Minha leitura: aqui está a ironia que ninguém no setor vai dizer em voz alta: caos no Golfo é o melhor marketing que a geração distribuída nunca pagou. Cada barril que trava no Mar Vermelho é um argumento a favor de gerar no seu telhado e guardar na sua bateria, longe de estreito, de milícia e de câmbio. Dependência de energia importada é risco. Autonomia é ativo. Quem vende só painel, vende commodity. Quem vende independência energética, vende num mundo onde o Estreito de Ormuz vira manchete a cada seis meses. 😅

the Grid

Energia sem release requentado. Toda terça, o que aconteceu no setor e, principalmente, o que fazer com isso antes do concorrente. A leitura de quem está na trincheira, não na arquibancada.

BESS, mobilidade elétrica, mercado livre, regulação e COMEX, na língua de quem opera: integrador, comercializador e profissional de energia. Com opinião de quem visita fábrica na China e fecha negócio no Brasil.

Direto no seu e-mail, toda terça-feira. É de graça, mas vicia.

até terça que vem!

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